Gleisi Hoffmann é absolvida por segunda turma do STF; saiba quem é e qual a trajetória política da presidente do PT
A
Segunda Turma da corte avaliou na noite de terça a ação penal que tinha como
réus também o marido de Hoffmann, o ex-ministro Paulo Bernardo, e o empresário
Ernesto Rodrigues - ambos também foram inocentados.
Os ministros Edson Fachin, Celso de Mello, Dias
Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, entenderam que o Ministério
Público não conseguiu comprovar as acusações de corrupção e lavagem de
dinheiro. Fachin e Celso de Mello votaram para condená-la por caixa 2, o que
configuraria crime de falsidade ideológica, mas Toffoli, Gilmar e Lewandowski
discordaram desse entendimento. A petista foi então absolvida de todas as
acusações.
Quem é Gleisi Hoffmann?
O enredo que conta a história de poder e penúria do
Partido dos Trabalhadores (PT) se repete, com algum mimetismo, na trajetória da
senadora, que é um dos nomes do núcleo principal da sigla.
Após uma escalada promissora em 2011, de senadora a
ministra da Casa Civil no governo de Dilma Rousseff, a curitibana assumiu, em
2017, a presidência de um partido já muito diferente daquele que fez Hoffmann,
52 anos, dar seus primeiros passos em ambiente palaciano.
O PT viu sua força eleitoral minguar
significativamente nas eleições municipais de 2016, sua correligionária mais
ilustre, a presidente do país, Dilma Rousseff, sendo retirada do poder pelo
Congresso e seu fundador e líder histórico, o ex-presidente Lula, sendo preso
após condenação por corrupção e lavagem de dinheiro.
Hoffmann, uma das vozes mais contundentes do PT a
reagir contra o processo criminal contra Lula, se viu na mesma posição de seu
mentor: de réu levada à Justiça pela Operação Lava Jato.
Diferentemente de Lula, no entanto, a petista foi
absolvida das primeiras acusações.
A denúncia afirmava que um esquema de corrupção
irrigou com R$ 1 milhão a campanha de Hoffmann ao Senado em 2010. Paulo
Bernardo teria pedido o valor ao ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo
Roberto Costa, e Rodrigues teria sido o responsável por receber a propina. A
denúncia se baseia em delações premiadas de Costa e do doleiro Alberto Youssef,
além de dados de ligações telefônicas entre os envolvidos e anotações na agenda
de Costa.
O STF entendeu que não há provas dessas acusações.
Além desta ação, no entanto, Hoffmann foi alvo de
outra denúncia pela PGR - que ainda será acatada ou não pelo STF.
Nela, a senadora e também seu marido são investigados
por suposta participação em organização criminosa durante os governos do PT. É
possível que haja outros inquéritos em tramitação que não puderam ser mapeados
pela reportagem por estarem sob segredo de Justiça.
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Hoffmann é ré, ao lado do marido, Paulo Bernardo, em ação penal a
ser julgada pela Segunda Turma do STF.
(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) |
Em nota divulgada antes da absolvição, a senadora
afirmou ter recebido com "serenidade" a notícia do julgamento da ação
penal em que ela diz ter sido "injustamente denunciada, sem qualquer prova
ou indício de crime".
"Trata-se de acusação forjada nos subterrâneos da
Lava Jato, onde criminosos condenados negociam benefícios penais e financeiros
em troca de delações mentirosas, que servem à perseguição política contra o PT
e os nossos dirigentes", disse a senadora.
Ela disse que aguardava há quatro anos o desfecho
dessa trama. "Nada vai apagar o sofrimento causado a mim e à minha
família, os danos à minha imagem pessoal e política, mas vejo com alívio o dia
em que a Justiça terá a oportunidade de me absolver e restaurar a
verdade".
Homenagem a Grace Kelly
Descendente de alemães, Hoffman
nasceu em Curitiba e foi batizada com uma homenagem equivocadamente grafada à
atriz Grace Kelly.
Estudou em um colégio católico e
costuma contar que desejou ser freira, mas foi contida pelo pai - já que a ida
ao convento implicaria uma mudança para o Rio Grande do Sul.
Foi ainda na escola que ela
passou a participar de atividades sociais e do movimento estudantil.
Já formada em Direito e
especializada em Gestão de Organizações Públicas e Administração Financeira na
Escola Superior Administração Fazendária (Esaf), Hoffmann assessorou nomes do
PT e compôs o secretariado de gestões da sigla no Paraná e no Mato Grosso do
Sul. Ela é filiada ao partido desde 1989.
Foi como assessora da bancada
petista na Câmara que Hoffmann conheceu, na década de 90, Paulo Bernardo -
então deputado federal. Eles são casados há mais de duas décadas e têm dois
filhos.
Em 2006, veio a estreia na
disputa por um cargo eletivo: Hoffmann foi derrotada na disputa ao Senado pelo
Paraná; em 2008, foi derrotada nas eleições para a prefeitura de Curitiba.
Finalmente, em 2010, foi eleita senadora pelo Paraná.
'Estrela em ascensão'
Mas o período na Casa foi curto:
ainda no primeiro semestre de mandato da recém-eleita presidente Dilma
Rousseff, Hoffmann assumiu o ministério da Casa Civil. Foi o apagar de um
incêndio causado por denúncias de enriquecimento ilícito que recaíram sobre o
então titular da pasta, Antônio Palocci, que pediu demissão do cargo.
"Eu a via como uma estrela
em ascensão da bancada governista", diz à BBC News Brasil um assessor da
bancada governista no Senado no período, que preferiu não se identificar.
"Foi uma pessoa que assumiu as grandes teses do governo, se colocava no
debate público, ia ao plenário. Em geral, é a oposição que fala muito e a situação
vota, mas ela se jogava no debate. Isso fez ela se destacar, tornando-a uma
líder natural."
Na época, o nome do próprio
marido da petista, Paulo Bernardo, foi aventado para o cargo. Mas ele continuou
como titular do Ministério das Comunicações, formando um casal de ministros na
Esplanada.
De 2011 a 2014, à frente da Casa
Civil, Hoffmann chegou a ser chamada de "Dilma da Dilma" por seguir à
risca o estilo da presidente de governar. A curitibana voltou ao Senado em 2014
após uma reforma ministerial que buscou acalmar a base aliada do governo e
preparar o partido para as eleições gerais que se aproximavam.
No mandato como senadora, seus
projetos giraram em torno de temas de administração pública e economia (7);
Justiça e segurança pública (5); gênero (4); e outros (2).
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Calheiros
(na foto, à esquerda) repudiou fala de Hoffmann (de terno vermelho) sobre
'moral' de senadores para julgar impeachment
de Dilma Rousseff. (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)
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Ainda em 2014, Hoffmann tentou se
eleger governadora do Paraná, mas chegou em terceiro lugar. Mas o próprio
Senado guardaria à curitibana espaço para alguns dos episódios mais
emblemáticos de sua carreira - e da história recente do PT.
O processo de impeachment da
presidente Dilma Rousseff, quando foi votado e aprovado pelo Senado em 2016,
causou turbulência entre os parlamentares e colocou Hoffman sob os holofotes. A
afirmação da petista de que o Senado não tinha "moral" para julgar
Rousseff rendeu a Hoffmann não só repreensões em plenário pelo ministro do STF
Ricardo Lewandowski e pelo presidente da Casa, Renan Calheiros, como uma
representação no Conselho de Ética do Senado.
A representação contra Hoffmann
foi solicitada pela senadora Ana Amélia (PP-RS), que argumentou que a petista
teria ferido a ética e o decoro parlamentar ao atacar o Senado de forma
generalizada. A representação foi posteriormente arquivada pelo conselho.
Embates com Ana Amélia
Nas redes sociais e na imprensa, Glesi Hoffmann e Ana Amélia
frequentemente aparecem como opositoras em embates públicos.
"Devo dizer que,
intelectualmente, a senadora é uma das parlamentares mais preparadas do PT em
matéria econômica e orçamentária", afirmou Amélia à BBC News Brasil,
negando que a oposição programática entre elas crie uma animosidade pessoal.
"Mas a convivência me mostra que ela é uma pessoa que tem fixação, eu
diria radicalizada, a seus princípios ideológicos. Isso a impede de fazer uma
autocrítica dos erros cometidos pelos governos do PT com a Petrobras e na Lava
Jato, por exemplo. Ela, especialmente pelo conhecimento econômico que tem,
deveria reconhecer esses equívocos."
"Eles (os
políticos do PT) usam aquela tática de repetir uma mentira até que ela vire
verdade. Vêm com um discurso de vitimíssimo, de perseguição jurídica,
insistindo como se o réu não fosse o Lula, mas o Moro (Sergio Moro, juiz
federal), o Rodrigo Janto ou a Raquel Dodge (atual procuradora-geral da
República). A Gleisi é corajosa, porque para defender o indefensável, tem que
ser muito corajosa."
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Relação
de Lula e Hoffmann não é recente: ela foi da equipe de transição do então
recém-eleito presidente da
República. (Foto: Reuters)
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O recorrente argumento dos
petistas de que a sigla estaria sendo vítima de uma perseguição no Judiciário
foi impulsionado a dimensões extremas diante da situação jurídica do
ex-presidente Lula. Já presidente nacional do PT - ela foi eleita em junho de
2017, apoiada por Lula e pela corrente majoritária do partido, a Construindo um
Novo Brasil (CNB) -, Hoffmann afirmou ao site "Poder 360" que, para
prender Lula, seria preciso "matar muita gente".
"Para prender o Lula, vai
ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente.
Aí, vai ter que matar", disse a senadora, na véspera do julgamento do ex-presidente em segunda
instância, após condenação determinada pelo juiz Sergio Moro.
Depois, no Twitter, Hoffmann
afirmou que as palavras foram usadas por sua "força de expressão para
dizer o quanto Lula é amado pelo povo brasileiro".
Plano B?
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Senadora
tem negado que haja 'plano B' à candidatura de Lula à presidência. (Foto: EPA)
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Uma vez preso, em Curitiba, Lula
fez da petista sua porta-voz fora da cadeia, recebendo visitas rotineiras dela
- interrompidas por idas e vindas de decisões judiciais e administrativas que
restringiram a entrada de pessoas na sede da PF em Curitiba, onde o
ex-presidente está preso.
Enquanto informações de
bastidores dão conta de que alguns membros do PT estariam defendendo um "plano B" à candidatura de
Lula à presidência da República, a curitibana vem repetindo que esta não
é uma possibilidade. Até mesmo seu nome teria sido sondado como alternativa, o
que ela negou no início de junho, no Twitter.
"Aviso reto: não sou
candidata a presidente, a vice ou pretendente a ser. O PT tem candidato! É Lula!!!
Aceitem, dói menos", escreveu a senadora.
A relação entre Hoffmann e Lula é
antiga: em 2002, ela fez parte da equipe de transição do então recém-eleito
presidente; no primeiro mandato do petista, ela foi nomeada diretora financeira
da Itaipu Binacional.
Confrontado com rumores de que
Hoffmann, como presidente nacional do partido, estaria sendo rejeitada por
correntes internas da sigla - incluindo a CNB -, o coordenador da corrente,
Francisco Rocha da Silva, o Rochinha, negou tal diagnóstico. Segundo ele, o
julgamento da ação penal contra a curitibana também não coloca dúvidas, no
partido, sobre sua continuação à frente da sigla.
"Não existe isso, pelo
contrário. Na minha opinião, a Gleisi, que não vinha de uma tradição de direção
partidária, tem dado conta do recado em um momento muito difícil da vida
partidária. É nota 10", disse Rochinha à BBC News Brasil por telefone.
"Em todas as reuniões da CNB, ela tem estado presente. Ela trabalha tanto
que não sei como consegue."
À frente do PT, o mandato de
Hoffmann vai até 2019; no Senado, até o fim deste ano. Oficialmente, a petista
indica a intenção de concorrer à Câmara dos Deputados no pleito deste ano.






