Um País à beira da estrada
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(Imagem reprodução)
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São Paulo - Quando você sai pela manhã para ir para o
trabalho ou para a escola e se demora no trânsito, nem se dá conta, mas está
tendo um enorme prejuízo. Muitas vezes, se optasse por sair mais cedo ou mais
tarde certamente chegaria ao final do mês com um dinheiro a mais no bolso. É
que os preços dos combustíveis assumiram patamares estratosféricos que beiram a
insanidade que quem define os valores. Pois bem, agora imagine no dia a dia os
milhares de carros que ficam no trânsito. Agora, pense de forma ainda mais
eloquente e tente determinar as consequências dessa paralisação. Em apenas 4
dias, o Brasil ficou parado nas estradas. Todos os segmentos foram afetados e o
mês de maio entra para a história como um dos que tiveram menos atividade
produtiva.
Ok, mas de quem afinal é a culpa. A gente sempre
tenta dizer, de forma natural, que é do governo ou dos governos. E, querem
saber, de fato a responsabilidade é todinha deles. Alguém em sã consciência
podia imaginar que essa forma de reajustar da Petrobras estava certa. Estava na
cara que era uma grande caminhada para um abismo à frente. Até quando o povo
aguentaria reajustes sobre reajustes, mudanças quase diárias de preços? Deu no
que deu. Faltou ao governo federal tomar a iniciativa, se antecipar, perceber
que essa forma de elevar preços era um caminho suicida. Faltou ao presidente,
bem antes, chamar os governadores e a própria Petrobras e sentar, e conversar,
e mostrar que o Brasil tinha comando, que não estava à deriva.
Mas, infelizmente, o governo é muito mal
assessorado, é movido a interesses políticos e a indicações de partidos e isso
quase sempre resulta em má gestão, medidas erradas ou tardias, avaliações
ruins. Se fôssemos uma empresa eu diria que sofremos de um mal crônico de má
gestão. Mas, se fôssemos uma empresa certamente já teríamos contratado um bom
headhunter (caçador de talentos) para dar um jeito nos rumos dessa
administração.
Então, meus amigos, sofremos todos por falta de
políticas e diretrizes corretas. Faltou ao Brasil lá atrás decidir pelo caminho
dos trilhos, dos rios, em vez de nos condenarmos a eternamente andar sobre
rodas. Faltou conversar com Estados que, embora quebrados, poderiam pelo menos
uniformizar as alíquotas de ICMS e dar um valor mais, digamos, médio aos
combustíveis em todo o País. Faltou à Petrobras deixar-se roubar menos e ter
feito refinarias que estão paralisadas ou que ainda são meros rabiscos em
pranchetas. Faltou ainda à Petrobras entender que estamos no Brasil, que é
louvável ter preços corrigidos pela média do barril do Petróleo, o acionista
agradece, mas que não temos a contrapartida da renda nem a evolução dos
salários, nem os empregos para acompanhar tudo isso. A pior coisa da admin
istração pública é essa falta de sensibilidade.
Por esses dias recebi um reajuste do plano de
saúde. A empresa botou correção de 16,34%. Ora, perguntei por escrito à empresa
e à ANS e sugiro que vocês façam o mesmo se estiverem na mesma situação, o que
neste Brasil de meu Deus subiu nessa proporção, que mercadoria, serviço??? A
resposta será quase nada, a não ser os produtos da Petrobras. Então, fica claro
que chega uma hora que chegamos a um limite e dizemos chega!
Eu acho, claro, que o movimento dos caminhoneiros
foi estimulado e encorajado pelos donos de empresas. Agora, vendo um desses
motoristas autônomos na tevê dizer que numa viagem viu o preço do diesel subir
4 vezes não há quem não lhe dê razão de ligar a seta e puxar o freio de mão.
Tornou-se algo insuportável. E, mais, hoje foram os
combustíveis, amanhã será o pãozinho, o leite, a carne, o arroz e o feijão. O
Brasil trata muito mal os brasileiros e o povo está no seu limite, com os
nervos à flor da pele, estressado e desanimado. Briga entre si, não vê luz no
fim do túnel. A coisa vai indo até que uma hora entorna. Que esses 4 dias
sirvam de lição.
Eleno Mendonça
Jornalista, consultor de imagem e diretor da Eastside 23 Comunicação Corporativa


